03.04.2025
Esta série não é um espelho, porque nela não nos vemos a nós; é sim, um sintoma de que algo dentro de nós está realmente mal e só tende a ficar cada vez pior...
Durante 2000 anos a humanidade moldou-se para que a língua fosse comum em, pelo menos, qualquer estado nação.
À entrada do novo milénio verifica-se que a comunicação entre duas gerações é difícil e a comunicação entre quatro gerações, dentro do mesmo seio familiar, é imperceptível! Ainda que este juízo seja hiperbólico, não deixa de ser aproximado. Contudo, em duas décadas, o tom hiperbólico de agora, será uma milestone… Isso não se deve unicamente à evolução da língua, mas, sobretudo, à evolução da tecnologia. Aqui convém recordar uma frase que poderia ser um mantra religioso: “First we build the tools, then the tools build us!”
Uma década depois do embate no novo milénio, Black Mirror “feria” susceptibilidades com as suas mensagens amargas sobre a influencia da tecnologia no ser humano, mas, a grande maioria estava concentrada em descobrir os seus gadjets pessoais, tal e qual o ser humano descobre o seu corpo e quais os pontos onde pode produzir prazer!
Tecnicamente Adoleslence está notável. A escrita está aguçada, cozinhada, mas crua (qual Tartare de bœuf!). A representação roça a realidade. A produção e montagem em plano de sequência é genial e convoca o espectador para dentro da dimensão espaço-tempo - razão pela qual o impacto é tão notório. A sequência está ajustada à gastronomia de cerimónia - quatro pratos - servidos num só dia. O passo é o adequado a provocar tensão, desconforto, conexão - hype - e ser um mega sucesso de uma plataforma de conteúdos audiovisuais, paga on demand.
Acima de tudo, a série, traça um plano muito aproximado da realidade e demonstra que: a) as escolas andam à deriva, os professores, auxiliares e demais intervenientes escolares estão sobrecarregados, perderam autoridade e o respeito de outrora; b) os laços familiares são muito superficiais perdendo cada vez mais força para um mundo virtual e avatares construídos de acordo com o que é viral e bem sucedido nas redes; c) a falta de diálogo, de presença e autoridade não favorece a relação entre pais e filhos, muito pelo contrário; d) a internet é um mundo novo que deve ser descoberto pelos pais e filhos, simultaneamente, pois é nessa teia global que reside o pior dos virus e a melhor das curas. Já não podemos ignorar a internet porque não conseguimos viver sem ela mas, por outro lado, podemos minimizar os riscos que ela aporta para a saúde do ser humano e para consequências que podem transformar a vida de uma familia num drama horrível, como demonstra a série Adolescence; e) o perigo que espreita das redes virtuais e a ilusão de pertença. A busca da excitação individual ao imaginar que faço parte de um grupo que se distingue dos demais independentemente das suas ações serem boas ou más, pode convocar no ser humano atos imprudentes, inacreditáveis e definitivos.
Para concluir, devo dizer que a avassaladora quantidade da informação que a world wide web traz para a tela individual sonega os nossos laços sociais, as relações familiares, a auto-estima, a felicidade. Por outro lado traz a recompensa diária que cada indivíduo procura por esse universo digital. A recompensa que a esposa e/ou marido não dá; a recompensa que os filhos não dão; a recompensa que os pais não dão; a recompensa a que tenho direito depois de um dia cansativo de trabalho; a recompensa que (parece) me afasta de um momento de solidão e ansiedade; a recompensa que a sociedade me tira por eu não ser famoso, por não ter o corpo ideal, por não ter o dinheiro que desejo, etc
De facto, vivemos num mundo desenfreado, à deriva, sem rumo, onde os mais velhos perderam a posição de ídolos para os ditos influencers. Onde esses “bem sucedidos” influencers tem muito pouco para ensinar ou poucos valores para transmitir, mas, ainda assim, são seguidos por uma legião de fãs! Um mundo onde o mais forte sobrevive e o mais fraco é subjugado. Por ventura, a história retoma os trajetos da época medieval mas o poder da internet indetermina qual é o desfecho da jorna diária.
O ultra capitalismo não dá tréguas ao ser humano. Por isso, é hoje mais difícil ser adolescente. É mais difícil ser pai. É mais difícil criar os filhos. É mais difícil ser feliz, amar e ser amado. Vivemos tempos difíceis de incerteza que a internet promulga como verdadeiros, mas, que na realidade são ficção. E nós acorrentados à tela, aos impostos, aos vícios, ao julgamento social mais não fazemos do que sobreviver à jorna diária. A vida está cada vez mais rápida, e, momento após momento, deixamos o que realmente importa. Fazemos opções em consciência que são irreparáveis e lamentamos que o tempo não volte atrás. E, por ventura, esquecemos aquilo que nos trouxe aqui…