domingo, 7 de maio de 2017

As 3 vidas de Maria

14/02/2017

Naquela noite de 14 de Fevereiro estava programado a qualificação da liga dos campeões de futebol europeu. 
Maria A. vivia com um pé na luxuria e outro na ganância. Esposa de um famoso jogador de futebol era tratada como uma rainha e fazia questão disso. Decidiu estudar, frequentar a universidade, não por vontade mas desejo. Desejo de ver e mostra-se a outros homens. Era bela e tratava o corpo com o objectivo de ficar cada vez mais bela; por fora! Treinava não por saúde, mas por sensualidade, por desejo de olhar-se no espelho e ficar excitada com aquela imagem. 
É o que está por fora que os olhos comem e, quando chega a hora de comer o que está por dentro, vai-se a fome e fica só a vontade! 
Chamou a sua empregada, deu-lhe uma nota suficiente para comprar o jantar para ela e os seus dois filhos ainda crianças. Pediu-lhe para os levar a um restaurante de fast food e depois ir ao cinema. Ordenou-lhe que voltasse a casa, duas horas depois, quando o futebol tivesse acabado e lhe trouxesse alguma coisa leve, para jantar. 
Quando eles saíram, tomou um belo banho e vestiu aquela lingerie rosa que o marido pagou. Cobriu o seu corpo com um fofo roupão e esperou um toque no telemóvel... 
Uma hora depois Valentim estava esgotado. Maria A. tinha usado e abusado daquele pedaço de homem que conhecera no ginásio. Ele, só tinha força para rir, quando viu que o dono da casa onde estava, da mulher que o espremeu até à ultima gota e o homem que lhe pagou o táxi de ida e volta, tinha marcado um belo golo. 

No mesmo intervalo de tempo, mas muito longe daquela casa, Maria B. estava desolada. Tinha preparado o melhor jantar, escolhido a melhor lingerie que usava por baixo do vestido que o seu namorado lhe dera, comprado velas e rosas, para decorar a mesa. Estava tudo pronto para uma noite em grande. [Culturalmente] A noite em que os casais têm que se reunir para fazer o amor sob a tutela de S. Valentim. Mas algo mais importante acontecia naquele momento. A liga dos campeões de futebol. Que tragédia para o plano sensual, erótico e lascivo de Maria B! Enquanto ela jantava o prato favorito do seu Valentim, ele roía as unhas no café com os amigos e fumava cigarros à medida que o contador do relógio no ecrã aumentava. Ele sabia bem o pedaço de mulher, a comida e o momento intenso que ele tinha à sua espera naquela hora, mas para Valentim isso podia esperar, o seu Benfica é que não!

Longe da ribalta e das luzes das grandes cidades, Maria C. e Valentim viviam um momento de grande afecto e amor. Ele tinha-a convidado para jantar fora e ela aceitou. 
A certeza de que não iriam ter aquela oportunidade por muito mais tempo era tão real como cruel. Amavam-se há muito. Tiveram dois filhos fruto desse amor, mas esses pouco herdaram dessa genética. Talvez o mundo os tenha mudado, porque em pequenos eles não eram assim, repetia Maria C. para ela própria, quando queria justificar o porquê de os seus filhos raramente os visitarem. 
Depois do jantar voltaram a casa. Valentim serviu um cálice de vinho do Porto para si e outro para a sua esposa e ofereceu-lho. Ela sentada no sofá, olhava os movimentos do seu amor, na expectativa. Enquanto ela bebia, colocou um disco antigo na sua aparelhagem também antiga. Quando começou aquela música, aquela música que era deles, ofereceu-lhe um embrulho em forma de coração que continha vários chocolates lá dentro. Sentou-se ao seu lado e passou o braço por cima dela. Ela deu-lhe um pequeno chocolate à boca, aconchegou-se no seu peito e disse-lhe: 
- Obrigada por sempre tentares fazer de mim a mulher mais feliz do mundo. Obrigada por me ajudares a ser o que fui até hoje. Obrigada pelo amor de sempre e para sempre. Obrigada por este chocolate, este momento, este mimo de ti para mim.
Amo-te, meu Valentim!

segunda-feira, 1 de maio de 2017

31:33 - The Handmaiden

26/12/2016

um quadro. o recurso a espelhos é frequente e a imagem cinematográfica captada, é excelente nessa produção! As decorações do espaço são um elemento do filme. Tem a sua identidade própria.
Para além da língua ser um elemento cultural, a ausência de palavras e a comunicação gestual e afectiva, marcam também uma cultura. Uns minutos de acção em que não se ouve uma palavra, mas os actores comunicam, entre eles, por gestos. 
[Agora] um apontamento do realizador: Estes minutos de acção são passados depois de uma afirmação do tempo. O relógio que toca, o relógio que o actor consulta, mas as horas não são, propositadamente, claras! Como se o tempo não fosse importante...

Nós surgimos no mundo com uma capacidade limitada. O nosso bio-computador está programado para se auto-desligar quando a energia está demasiado baixa. Ao "apagarmos", limpamos a memória para mais uma horas seguidas de informação. Assim, estamos a carregar bateria que nos permite ser energéticos, durante essas horas de recolha de informação. 
Será que alguém conhece um animal, um ser vivo, que não esteja auto-programado para se "apagar" durante um espaço de tempo que é diferenciado pela luz solar ou ausência desta? Ou pela ausência da lua ou pelo seu brilho?! 
Todo o resto dos biliões e biliões de estrelas não são suficientes para nos diferenciar...
Quando a memória fica em sobrecarga é problemático. Pode trazer várias mazelas e vai, com certeza, alterar a nossa fluidez de pensamento. 
As contas por serem simples de fazer, no final, percebermos que passamos um pouco mais de um quarto do ano a dormir. 
Dormir 6 horas por dia. Em 365 dias. São 2190 horas. Dividindo todas essas horas por dias de 24 horas. O resultado são 91 dias e um quarto. 
Ao dividir o ano em quatro o resultado é o mesmo. 91 dias e um quarto. 
Quem dormir um quarto do dia. Dorme um quarto do ano. 
Parece fácil, mas é abstracto. Tu és daqueles que dorme um quarto do ano, ou não passas sem um terço?