terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Xeque-Mate

22.02.2022

Começa a erguer-se, num horizonte longínquo, uma guerra com consequências imprevisíveis mas devastadoras. Vladimir Putin iniciou uma reconquista de outros povos, nações e estados independentes, numa tentativa de emancipar o reino soviético. Aqui, no extremo ocidente sentimo-nos salvos, calmos e até despreocupados. Na verdade, a angustia, o nervosismo e estado de alerta, do povo ucraniano, não é sentido através das imagens da comunicação social. Esse pânico e terror borbulha lá longe e, nós aqui, não fazemos mais do que ligar e desligar a televisão, para perceber a próxima jogada deste jogo de xadrez, que Putin e os seus aliados, tem vindo a jogar. 

Talvez não seja demasiado patético afirmar que esta é uma guerra entre absolutistas e liberais. Se admitirmos que os neo-absolutistas - ou se preferir, os ditadores do século XXI - (vulgo Xi-Jinping, Bolsonaro, Kim Jong-un, Erdogan, Orban e outros) não favorecem, mas também não se opõe à reconquista russa, então percebe-se que há, atualmente, uma força musculada absolutista, que planeia emancipar o império a todo o custo, ao mundo ocidental (leia-se neo-liberais e democratas).  

Na verdade, Vladimir Putin domina a Georgia, Bielorrússia e vem, paulatinamente, conquistando pedaços da Ucrânia com paciência e frieza, sem que o Ocidente o faça parar. A Ucrânia é o maior país do continente europeu. Para os entendidos, o celeiro da Europa e um país com reservas minerais notáveis. Muito está em jogo, neste jogo de vida e morte. 

Estas forças ocidentais (Europa e USA) ainda não fizeram mais nada do que ameaçar com sanções económicas e desde 2014, Putin conquistou a Crimea e outras províncias que estão agora nas mãos dos separatistas (Donetsk e Luhansk), todas território ucraniano. Com isto, mais de 10 mil pessoas já perderam a vida. Famílias que se perderam para sempre, vidas que nunca mais conheceram paz e alegria.

As sanções económicas afetam muito pouco Putin, porque a este ditador não falta nada, nem nunca vai faltar. A Russia é uma nação que gira em torno das suas oligarquias gananciosas e alimentadas por dinheiro, que resulta de todo o tipo de negócios e crime. A grande maioria da população vive miseravelmente e ameaçados por uma ditadura implacável. 

A minha interpretação leva-me a perceber que Putin só tem um objectivo: conquistar a Ucrânia a todo o custo - nem que isso demore anos, décadas. Se ninguém se opuser, outros países se seguirão e o império soviético crescerá historicamente. 

O jogo está lançado. Um ditador de punho de ferro não bate em retirada; morre na batalha. A história diz-nos isso. Putin é demasiado grande, perante o seu povo, para recuar sob as ameaças do ocidente. Os russos estão com ele, pois não há outra escolha. 

A única salvação de um ditador é a morte. Perante tais manobras de xadrez, arrisco-me a dizer que o xeque-mate está mais próximo do que parece. Eventualmente, esta será a ultima e grande jogada de Putin: a) ficar perpetuado na história como o conquistador do império soviético do século XXI; b) morrer e ser idolatrado pelo seu povo como um grande patriota e defensor da grande nação que é a Russia.          

domingo, 6 de fevereiro de 2022

Tempestade Perfeita

02.02.2022

Após as eleições legislativas a comunicação social foi voraz em acompanhar os 12 passos desde a saída do elevador ao púlpito, onde Rui Rio foi levado a responsabilizar-se do fracasso e a admitir uma demissão do cargo ocupado nos últimos anos. Rio não pode ser o único responsável, mas sim todo o mecanismo do PSD que andou durante anos focado em denegrir a imagem do seu líder, promovendo a instabilidade do partido, quando o seu primeiro e único objetivo era focar-se na oposição ao governo e esperar pela oportunidade de substituir o governo vigente. Enfim, focos errados que não podem ser endereçados a um homem só. 

O dia, mas sobretudo, a noite de 30 de Janeiro de 2022 será histórica. Não apenas pela inesperada maioria absoluta do partido socialista como pela cristalização de o partido Chega como terceira força política. Foram, de facto, umas eleições legislativas muito interessantes, mas vamos por partes. 

Ainda numa tentativa de varrer os cacos dos estilhaços da noite festiva do PS e arrumando a sala, depois de tudo (e muito), do que já foi comentado, notavelmente, na comunicação social alargada (nas ditas redes sociais), considero que existe possibilidade de esboçar uma opinião mais palpável e clara.

Algo de paradoxal, cómico e dramático aconteceu ao mesmo tempo, ou não fosse este, um episódio da vida real. Passo a explicar: os dois protagonistas da noite são hábeis figuras políticas capazes de movimentar legiões mas os resultados que alcançaram não são produto do trabalho, a intelectualidade ou astúcia que cada um tem para oferecer. 

Esta proeza de António Costa não faz dele um génio politico, ou seja, nem a sua acarinhada comunicação social, comentadores politicos e estudos de previsão, lhe atribuíam uma maioria e para um infindável optimista como Costa é, uma maioria absoluta, era o sonho de uma noite de verão; isto é, fantasia.  

André Ventura é inteligente, tem qualidades de feirante, cavalga nos podres que o sistema produz e com isso, e apenas com isso, conseguiu levar o Chega a terceira maior força política nacional, em três anos. É notável, mas ao contrário do rótulo que as massas lhe atribuem e onde ele se vai alimentando, André Ventura, não tem nada de ditador, extremista ou vil. Qualquer comparação a Caligula, Hitler, Kim Jong-un, Putin ou Xi-Ping é pura ilusão. 

O Chega cresceu nesse vazio que a democracia portuguesa nunca saciou, não por arte do Ventura mas porque existe um numero considerável de portugueses em todo território nacional descontentes e contra o sistema implementado pelos maiores partidos e as suas elites. Portanto a minha interpretação da noite eleitoral é que a 30 de Janeiro de 2022 se formou a tempestade perfeita que castigou os partidos à esquerda e deixou os dois partidos à direita muito mal tratados: um gravemente ferido (PSD) e outro em morte cerebral (CDS). 

Anteriormente, no texto Fim do ciclo ou fim do circulo?, datado de Outubro passado, referi que havia duas possibilidades: a) maioria absoluta do PS ou b) maioria dos partidos à direita coligados, onde a minha preferencia recaía sobre a segunda. Entendo que devia ter recaído sobre o Chega uma pressão constante de mostrar ao que vem e o que pode fazer quer através de retórica como através de resultados práticos. Assim, mostrando aos eleitores do Chega a liquidez do partido, a navegação sem rumo, a incapacidade de legislar em prol de uma sociedade mais igualitária e equilibrada. 

Pois bem, nesse mesmo texto referi também como pode ser perigosa e preocupante a rápida ascensão do Chega. Pois, não havendo oposição direta e considerando o Chega como a oposição, neste caso, protestantes assíduos de uma maioria absoluta que se resigna a fazer de conta que eles não existem, muito dependerá da obra que for feita por António Costa, ao longo dos próximos 4 anos. Costa vai ter tempo, estabilidade e dinheiro que lhe permita fazer reformas urgentes no sistema português. Portanto, diria que, para aquele que muitos consideram o melhor politico da sua geração e tudo se alinhou a seu favor, esta é a sua oportunidade dourada para se perpetuar na história nacional como segunda figura principal do partido socialista, logo depois de Mário Soares. 

Para concluir reitero a minha preocupação do que advém desta noite eleitoral histórica. Ou seja, o que me preocupa não é André Ventura e o seu rebanho, mas sim, os que virão depois de Ventura para liderar um partido legitimado democrática e constitucionalmente, com imagine-se 30% (ou mais) do eleitorado nacional a seu favor, onde coligado possa formar governo e Ventura seja substituído por alguém realmente ameaçador, ditador e perigoso para a democracia nacional.

Portugal sendo um país de brandos costumes pode descuidadamente caminhar sobre areias movediças que levem a liberdade, a fraternidade e igualdade (lema da revolução francesa que promulgou a democracia francesa e, por consequência, a europeia) para zonas proibidas e graves, para as próximas gerações nacionais.  

Não esquecer também que, tal como os inesperados resultados eleitorais, uma inflação que muitos acham temporária e, por isso, desvalorizam, pode, efectivamente, ser uma ameaça a médio prazo, contribuindo para um esmagar da sociedade média. Isto são contas de um rosário que para já ninguém faz, nem o próprio Costa, mas pode muito bem ser um dos seus principais adversários durante os próximos 4 anos.

Com isto termino dizendo que caso a inflação seja de facto permanente nos próximos anos (a meu ver, o PRR português e os seus homólogos que vão ser distribuídos a nível mundial, não veem de mão beijada!) nem o todo poderoso António Costa que muitos aplaudem, agora, de pé, vai conseguir contornar esta problemática/dramática situação, e, na melhor das hipóteses (para ele) estará já a ocupar um cargo europeu, lavando as mãos como Pilatos, com um sorriso nos lábios como é seu apanágio.     

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Fim do ciclo ou fim do círculo?

28.10.2021

Na iminência do chumbo do orçamento do estado, o Presidente da República, havia dito, repetidas vezes, que iria dissolver a Assembleia da República, se tal acontecesse e, prosseguir para a marcação de eleições legislativas antecipadas.

Pois, pela primeira vez depois do proclamado dia da liberdade, 25 de Abril de 1974, um orçamento do estado foi chumbado na Assembleia da República. Retomo o que declarou Tomasi di Lampedusa (1958), “é preciso que algo mude para que tudo fique na mesma” para referir que se tudo ficar na mesma, então, de nada valeu, este facto histórico. 

Recordemos o episódio em que Rio, ingenuamente, estendeu a mão a Costa para um bloco central e este do alto do seu patamar, petulante e com notável arrogância, exclamou: “no dia em que este governo precisar do PSD, eu demito-me!”. 

Em alguns casos, a verdade é que, por vezes, os amigos são mais valiosos que a própria familia. Mas para Costa, o infindável optimista, a visão utópica de governação nacional não faz parte dos seus planos, nem para a história nacional, nem para a sua história pessoal. Utopias à parte, o futuro da governação muito dependerá do trabalho das estruturas internas e para o exterior, que os dois partidos históricos e mais sólidos, posicionados à direita, fizerem nos próximos dois a três meses. Convenhamos que, pelo meio, teremos as festividades natalícias e de final de ano que provocam, sempre, uma azáfama de duas  semanas e mais uma de recuperação. É, por isso, importante, que as eleições sejam marcadas para depois do primeiro trimestre de 2022. 

Não se pedem pressas para não chegar a lado nenhum. Pede-se, sim, um processo amadurecido e esclarecedor da visão futura para Portugal. Nesse sentido, as duas alternativas que me parecem plausíveis são: uma maioria do Partido Socialista ou uma maioria dos partidos de direita coligados. Aqui chegados, reitero, acho mais desfavorável aos desafios que enfrentamos, e iremos enfrentar nos anos seguintes, uma maioria em que o PS governa tudo, do que a governação que é repartida entre partidos coligados de direita. Dada a aritmética desacertada, própria das eleições, dos tempos actuais, partilho a opinião de que o crescimento do Chega e a diminuição do eleitorado do Bloco de esquerda e do Partido Comunista Português será fundamental para a equação. Por tal, levanta-se a questão: será o Chega a solução ou o problema? 

Para mim, a melhor forma de perceber se o Chega beneficia ou destrói a democracia é deixando-o integrar o governo e analisando as suas ações, resultados, ou seja, de forma empírica. Assim, os eleitores do Chega, poderão perceber, efectivamente, qual a contribuição do seu partido para o desenvolvimento nacional. Não devemos ter medo de assistir às promessas retóricas que um líder partidário faz, sem analisarmos, de facto, as suas ações e, no entanto, esperar que algo mude. Sublinho que através deste processo, os militantes do Chega, poderão analisar o seu contributo para o país e, efectivamente, retirar ou acrescentar valor em prol do seu trabalho. Senão, corre-se o risco de o Chega continuar a crescer exponencialmente alimentado por uma corrente anti-democrática, e um dia, atingir uma percentagem preocupante e perigosa. 

Assim, eu acredito que Rio vai ganhar as eleições internas. Com isto, reforça a sua imagem externa e encabeçará um governo de direita como primeiro ministro, do qual o Chega fará parte. Dessa forma, o Chega acabará engolido pelo poder dominante ou, por outro lado, demonstrará a sua inutilidade na política e legislação nacional, terminando assim o tormento da extrema direita num pais democrático de brandos costumes. 

Na verdade, 180 e 360 graus são ambos componentes de um mesmo círculo. Apresentam, contudo, visões diferentes na geometria legislativa. 


P.S. Sou da opinião que, um número considerável dos eleitores que votam no Chega, não o fazem porque se revêem na suas propostas para o país, mas porque se querem afirmar contra a hegemonia vinculada aos partidos mais votados. Porque entendem que a melhor opção de voto é contra os que tem governado o país nas últimas cinco décadas (leia-se PS e PSD). Muitos não são a favor das medidas mais extremas apresentadas pelo partido Chega, mas são a favor de retirar votos aos partidos de centro. Dito isto, considero que os votos do Chega fariam muito mais sentido numa alternativa ao último governo (leia-se PSD) do que propriamente num partido liquido, com pouco futuro, incapaz de mostrar solidez e prosperidade para uma época fundamental que se avizinha. Devo dizer que durante esta década é fundamental crescer progressivamente, aproveitando e aplicando com eficácia as ajudas que vão chegar da Europa, reformar o país, nos vários quadrantes basilares (Educação, Cultura, Justiça, Segurança Social, Economia, etc) de forma a que Portugal se destaque lá fora, e com isso traga investimento externo tão necessário a um desenvolvimento económico favorável a melhores condições de vida e mais prosperidade à sociedade portuguesa do século XXI. Para concluir, devo dizer que, de tudo aquilo que tenho visto, Rui Rio, parece-me ser o homem capaz de implementar essa tal mudança e por tal, deve ser-lhe dado o voto de confiança.