quarta-feira, 12 de setembro de 2012

O Velho do Largo

16/03/2012

Largo do Camões, sentado
Calçada portuguesa calcada 
Um sem abrigo deitado
E uma nação marcada

Vozes de um país distante
espalham-se ao longo, no vento
Ele com um olhar penetrante 
pede misericórdia e alimento

bebendo um café pingado
aproxima-se do velho humano
e de um bolso apertado 
saca um bonito pano

Pensando em papel timbrado
o velho esboça um largo sorriso
mas para seu desagrado
o jovem está indeciso

Então sem mais pensar
do pano sai uma lembrança
levando-o a recordar 
os seus tempos de criança

Relógio de talha dourada
trabalhado e construído à mão
De uma herança deixada
De um amor de coração

Em passados esquecidos
como quem entra e sai
lembra os momentos mais queridos
junto de seu pai

Depois de olhar bem para ele
o velho lamenta o seu trilho
sabendo que o jovem é dele
em lágrimas chama-lhe filho

E neste momento sofrido
o velho pede perdão
depois de um abraço sentido
sozinho, só ele e a solidão

Passado

02/07/2012

Estava a fazer um regresso ao passado, através de música de outros tempos e lembrei-me de alguns momentos. As horas marcam exactamente o momento. Mas a música também pode marcar o momento, sem dúvida. Então digamos que na maior rede social, as pessoas partilham música. Elas publicam um link que nos remete para um servidor gigante, onde vamos encontrar essa música. Ou várias versões dessa música. Ou até novas experiências visuais e cognitivas do qual essa música faça parte. 
Então, por momentos, lembrei-me de quando lavrava as terras. Sentado naquele tractor. Um dos dois. Podia ser um tractor mais pequeno ou um maior, mas o meu espírito era o mesmo. Manhã já bem levantada, o sol a aquecer. Eu de óculos de sol, headphones, cigarro na mão e alta música a fazer-me viver o momento. Muitas vezes este momento de acção se repetiu. 
Eu sei lavrar a terra. Alguém me ensinou. Ensinaram-me muitos caminhos da vida. Eu tenho aprendido bastante. Ouvir um grupo chamado, Pink Floyd, ou mesmo Heroes del Silencio e lavrar, lavrar.. 
Ali, a respirar aquele ar puro da natureza. O cheiro da terra virada, a robustez das plantas e um sol limpo. 
Foram muitos desses momentos e em quase todos eles, que eu reflecti sobre a minha vida. Sobre mim mesmo e sobre os outros. Sobre a família, sobre o respeito e sobre o amor. Sozinho, eu e o tractor. Eu e a música. Eu e a terra, o meu momento que marca um percurso da minha vida. 
Hoje estou a reflectir sobre os mesmos momentos com o meu computador. O meu pc. Então parece que vivo aquele momento, no tractor. Essa música trouxe-me à memória essas e outras coisas. Eu tive um momento parado, salvo seja, a escrever, sobre o meu passado. E também posso dizer que até eu, nessa altura, estava passado!