quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Imaginary fields

 04/07/2021

Perhaps hedonism post-modern slogan “to live fast and die young” makes sense for the majority of boomers, ozorians, psytrancers in general. Or these temporary autonomous zones are but imaginary fields build upon the ancient doctrines of hedonism allowing its participants to engage in post-modern religious movements, produced by the global technomad tribes.

For the first time in more than twenty years have been released on internet an historic and ethnographic approach about music genre psychedelic trance and its culture. Boom festival 20 years promotes the event going back to the first edition in 97 and how it have grown from there. It recognizes the history behind the psytrance movement in Portugal, its variations and the endogenous features of an alternative culture. Moreover it recognizes how an underground movement with origins in Goa, India, became mainstream and originated million euro industries to overcome the expectations of its participants. 

Turning Point Ozora documentary released at early August 2021 sets festival origins to Goa and how it started in Hungary. It is important to mention that national cultural properties are implicit at these two documentaries. Language is necessarily one of those differences, among others. 

In Turning Point two of the leading djs on the scene are interviewed and they explain pandemic impact on their job and on their life. Their super busy agendas have suddenly been suspended after festivals, parties and other event alike were cancelled. While they both agree how they got the time to spend with their kids, it is understandable through their testimonies how difficult and uncomfortable has been to be confined at home. Pandemic first and foremost showed humanity how important and necessary is to stop. To have a break from the wheel of life, to give away the rush in which we get involved at industrialized and capitalist nations.

As I watch turning point and listen to this guys I understand the follow paradox: they all proclaim festivals, the psytrance movement, as a big family, one love, a huge community, but that have failed at home as their super busy agendas put them away from their kids and their beloved ones. Given the opportunity how would they change the world if they don’t lead by example at home? If they get to spend most of their time away from their families in order to make money to buy them things they don't actually need and in doing so, they give up something money can’t buy: time. 

Certainly children need their parents love and if you think you can have them loved by buying them entertainment technologies, while you spend most of your time away, you live in a great illusion. Our timeline is uncertain and one never know when it comes to an end so it is important to make strong decisions. At a given moment one shall leave this planet and his story won’t ever be recorded. 

While I listen to the guest speakers at both documentaries I understand they all converge that these particular festivals operate as an escape, a break from every day life where people tend to be what they can’t be in ordinary world. After a week they return from the imaginary fields to the everyday world where they become what they are not but must follow. They put on their jobs and all its cargo (responsibilities; hierarchical systems; duties), their social status, their persona, their masks, only to live according their communities. We are not the clothes we wear; we are not the cars we drive; we are all the singing and dancing terrestrial creatures; we are reality makers. 

Although one may be recharged after an escape from ordinary world, one understands that this promised land is a spacetime dimension about to vanish and sooner than he would like, he needs to address himself into the everyday world. A world he claims: he doesn’t belong; he doesn’t identify with, a world he wants to escape.


Quite frankly, we are only having this conversation because psychedelics are the protagonist of the story, otherwise we would find it hard to decide whether we should spend a week at rural, in nature place or in a five star hotel exchanging promiscuous eye contact with our temporary hotel neighbors while we drink martinis by the pool as a sort of posh hedonism. 

terça-feira, 27 de julho de 2021

Sisifo voltará

27/07/2021

Olhando para os acontecimentos históricos do passado é perceptível que uma mudança se aproxima. Por outras palavras, os grandes acontecimentos mundiais não passaram sem deixar marca. É possível dizer que esses acontecimentos puseram fim a uma era e iniciaram outra. Analisando esses casos, percebe-se que o fatídico dia 11 de setembro de 2001, acelerou a partilha de dados abrindo espaço para o domínio total da world wide web. Através da world wide web é muito mais fácil vigiar as pessoas e perceber os seus movimentos. 

Recuando um pouco, poderá dizer-se que as quedas dos regimes ditatoriais da década de 70 e 80, sobretudo nos estados nação europeus, permitiram uma abertura a uma Europa fragmentada e desigual. Ainda que estes acontecimentos tenham sido mais contidos, a uma escala quase territorial, foi notória a transação e a abertura ao consumo exterior que resultou após a queda dos regimes ditatoriais. 

Não podemos deixar de referir aquele que foi o acontecimento cimeiro que desencadeou uma mudança sem precedentes; o acontecimento que mudou as sociedades globalmente. Claro, a segunda guerra mundial. A sociedade de produção fundiu-se numa sociedade de consumo e, hoje, a espiral consumista apresenta uma falência que muitos diriam incontornável. Foi, de resto, uma vontade e necessidade incontrolável que expandiu a ameaça global ao maior ser vivo do universo, conhecido por mãe de todos os seres vivos. 

É provável que a mãe Terra esteja tóxica, debilitada e desequilibrada. É provável que esse desequilíbrio seja notório nas constantes mudanças abruptas de clima, na infertilidade de alguns espaços, outrora pródigos em gerar vida. 

Não podemos achar que após este episódio pandémico, que assolapou o mundo, tudo será como dantes. 

Voltando ao intróito, este acontecimento marca o fim de uma era e o inicio de outra. Assim, o desenvolvimento digital será acelerado e dominará a humanidade nas próximas décadas. Também aqui está a maior fractura entre nós e o nosso planeta. Eventualmente, o corpo humano alcançará maior longevidade, mas isto não vem sem preço. Teremos que abdicar de partes do nosso organismo e, lentamente, transitaremos de seres biológicos para seres híbridos, onde a nossa parte meta-física se irá expandir num cosmos totalmente virtual. É lá, nesse cosmos virtual que encontraremos a felicidade, o entretenimento, a satisfação de estarmos vivos. Além de tudo isso, será necessário uma super fonte energética para manter esse cosmos virtual a funcionar. E isso, terá um preço elevadíssimo. 

Cá fora, onde a gente vive agora, será inóspito. Ecossistemas em ruptura, relações voláteis e desequilibradas. O instinto animal, que será o último a deixar o corpo humano, continuará a assombrar a cada esquina, com perseguições, violência e morte. O desequilíbrio será total, resultado da formação de um cosmos artificial e um caos orgânico. 

Com esta, estará fechado um ciclo terrestre bastante inferior ao anteriores, que por milénios, promulgaram a filosofia perene.        

Aí chegados, a mãe Terra gerará novamente vida e Sísifo voltará a habitar o planeta, para de novo, empurrar a pedra até ao cimo da montanha…

sábado, 24 de julho de 2021

Raça Suprema

13/03/2021

Não será só impressão minha, mas parece-me que, ao longo dos últimos séculos, fomos ficando mais velhos cada vez mais rápido. Noto que a diferença sócio-cultural entre décadas, de séculos passados, não foi tão íngreme como é na atualidade. 

Mentalmente podemos fechar o nosso ciclo histórico do século XX, o que foi notável ao longo das dez décadas anteriores. Por exemplo, a diferença nas práticas e representações culturais de vestir entre 1910 e 1990 é peremptória nesse sentido. Além disso, reitero que a diferença entre 1990 e 2020 não pode ser desvalorizada. E, no entanto, só passaram duas décadas do ainda infant século XXI.

À velocidade que o mundo gira e à forma como se interligam os humanos neste planeta atual, as clivagens entre décadas será muito mais acentuada. Poderá dizer-se que desde o longínquo 11 de Setembro, o mundo não terá tido outro choque global, como está a ser esta pandemia. 

Hoje, percebe-se à velocidade da luz, que eu estou interligado ao mundo de forma digital. Eu conheço esse mundo todo, porque esse mundo existe virtualmente. Não na minha memória, mas nos interstícios da programação computadorizada que o homem criou para si próprio. Assim eu posso aceder, visitar todos aqueles sítios que eu já ouvi falar, virtualmente. A terra já não é mais o meu habitat

Somos seres virtuais com estímulos e sensações fisiológicas. Alguns diriam que vivemos na nuvem. Talvez a gente viva mesmo por aí, porque a nossa terra ficou pequena de mais para nós. A sincera verdade é que os humanos vivem ansiosos por uma ligação, interconexão virtual. A grande maioria dos terráqueos não vive sem estar conectada diariamente para alimentar um mundo que gira a cada vez mais velocidade, até que o nosso sonho seja alcançado, e, um dia possamos viajar intergalaticamente à procura de novos mundos para conquistar. Porque este, o planeta Terra, já há muito a gente conquistou.  

Hoje, estamos para lá das palavras, para lá das imagens. Estamos perante um espelho que nos revela o mais podre da ganância humana. Um dos pecados capitais da raça suprema como tão bem descreveu Alighieri. Na verdade, o século XXI ditou já os sete novos pecados capitais, que substituem os que perduraram na mente humana, durante meio milénio.

Esta mudança em curso pode muito bem representar a quebra do acordo que existiu, desde todo sempre, entre a mãe natureza e a sua mais bela criação: o ser humano. Quem é este humano eletrónico que se constrói a ele próprio, numa tão bela representação da artista Carlyle, self made man?      

Questiono-me, será que os humanos viverão felizes na Terra, no próximo século? Como será essa interligação com o mundo biológico? - o nosso berço. 


sábado, 3 de julho de 2021

Cabal

27/04/2021

Tenho a percepção que sou inquestionavelmente um fascinado pelo conhecimento. Interessa-me muito perceber a evolução do sapiens. Entender e construir na minha mente a história da humanidade. A civilização ou cultura (ver Freud) que se dissemina no tempo; que se forma e se extingue de forma orgânica, assim só, como o dia e a noite. Assim eu a compreendo, uma vez que é temporal e progressiva. 

O modo como o sapiens se relaciona e interliga com as ferramentas que cria, é fascinante. A meu ver, é uma certa apropriação cultural que o objecto que ele criou lhe devolve. Uma forma espiral que desagua num renovar de ferramentas, mentalidade e forma de viver/estar. Neste espaço geológico atual, em concreto, regista-se um objetivo eletro-digital, de origem sintética e plástica. São estas ferramentas que modelam o homem, aliás, assim foi sempre, como bem referiu Mclhuan: "first we build the tools then the tools build us!" 

E poderá assim dizer-se que atualmente a nossa espiral, ascendente e descendente, no seu percurso cronológico, alcançará, a seu tempo, a melhor criação humana: humanoides programáveis e submissos. Por ventura, nessa altura, o cabal impacto que o sapiens teve com as suas criações ao longo de milénios, será mensurável e absoluto.

Transformador

12/02/2021

De que forma nós, humanos, transformamos a dor? 

Este ano o carnaval será digital, ou seja, não estão permitidas reuniões/celebrações em grupo, no espaço físico, geográfico mas sim em “outros espaços” - nas várias salas digitais manifestas da world wide web. Nunca antes havíamos feito uso de tal recurso, até porque primávamos pelo contacto, o calor humano, os corpos suados em folia e fantasia. O prazer da carne puro e duro, que o carnavalis confere. 

O mundo antropoceno mudou e pela primeira vez as pessoas fantasiam-se em casa para ficar em casa, permitindo e convidando outras pessoas a “entrarem” nas suas casas através de um sinal digital electrónico. Com isto, nem precisam de descalçar os sapatos à entrada, pois não há risco de sujar nada. Mais, com isto, alguns grupos podem fantasiar-se de nudistas e passearem pela internet desta forma, sem risco de passar frio, contagio ou vergonha. Deve ter-se em conta que a liminaridade fantasiosa do carnaval, ao longo dos séculos, suscitou e promoveu orgias, desejo sexual e obscenidades impróprias a devotos cristãos. Dir-se-ia umas infames festas orgiacas e dionisias que promulgaram o distinto carnaval de Veneza. 

Neste sentido, acende-se aqui um certo voyeurismo clássico da propriedade secreta a que o confinamento nos obriga, particular da permanência no espaço privado, que é assim partilhado. Aqui chegados, questiono se estes “outros espaços” serão promotores de lascividades e pornografias desmedidas próprias de um ritual catartico e de purgação tão manifesto desta época anual? Ou serão apenas respaldos de um imaginário obsceno? 

De qualquer forma, a vertente da saúde e economica posta em risco com este capitulo covid19, revela só meia dose do impacto geral susceptível deste virus transformador.

Gunda

17/12/2020

Gunda is extraordinary. Apart from art, Gunda raises the question: would you rather become an animal lover or stop eating meat? Now, here’s another: after watching Baraka would you fundraise child associations in the poorest countries or become a capitalist eager to show off your high level lifestyle on social network? Last one, free of charge, if you had to adopt a child to save the world, would you? If humanity were to enter a famine period would you spare your excess stock or run into supermarkets to buy more and more? After all what kind of person are you? 

While Gunda non narrative presents animals to look into ourselves, Baraka non narrative is a thought provoking picture of ourselves. Yet after nearly three decades, our world only got worse...

Digital Dream

 26/03/2021

We are on the verge of the good old life. I think the worst problems humans face in a near future are not climate change, pandemic, poverty and hunger, but the collapse of endogenous structures which we cultivated, produced and maintained for millennia as a way of Earthling quotidian. 

Problems identified above will push humans to an unescapable digital reform. In the next decade or so, we will all be chip installed in order to maintain civilization and safety. If you will to engage in an event your chip should display your immunity, vaccines, and whatnot and accordingly you will be granted entrance. Be no fool, the world wont ever be back to the good old days (read safety and freedom). Pandemic lead an in course revolution to once and for all tune in, turn on, drop out digital era. Somewhere in the 2030’s organic, raw, rebellion lifestyle will be persecuted and disapproved. You shall not live out of control. 

Humans will be divided into different ranks and relations should only be advised accordingly. Money, sanitary conditions, vaccination and above all chip control should be mandatory for marriage, child care, education and job market. Humanity shall be divided like never before and supremacy will forever blame those poor, rebellion and toxic “brothers in arms” like past has never existed. I still feed this bright thought, nevertheless that this dark ages of digital era wont be long. Hopefully the world commanders will be occupied in conquering space and some shall perish at their unstoppable greed. 

Only then and by then, humanity shall wake from this digital dream and together restore and take care of Mother Earth.

Herege

 27/04/2021

Pelo sinal óptico percebemos o mundo. O mundo não como ele é, na realidade, mas como nós o vemos. Isso implica duas coisas: que somos construtores de realidades; e que somos limitados, pois a nossa capacidade é delimitada pelo nosso sentido de visão. 

Aqui reside o perigo da religião: ver o mundo não como ele é, mas como nós o queremos ver. De forma hermética e rígida os religiosos fervorosos estabelecem o seu credo, a sua doutrina e os seus mandamentos. Assim, perseguem a visão alheia de forma a aniquilar qualquer herege. Qualquer vicio ou melanoma que possa pôr em perigo a sua realidade, porque o mundo como cada qual o vê, tende a ser o mais perfeito. Errados estão os outros, esses que atormentam a minha realidade. 

Por fim, o núcleo dos fieis não serão mais do que hereges, reunidos e unidos em combater a visão errada e perigosa do outro - lobos com pele de cordeiro, pelo sinal da santa cruz.

segunda-feira, 28 de junho de 2021

Laboratório sociológico: Um epifenómeno denominado psytrance

06/02/2021

O BF gira em torno de um epifenómeno chamado psytrance. Aliás tem sido assim desde há cerca de duas décadas. Identificado por St John como hyperliminal e determinado pelo BF como Dance Temple, este espaço é a prova maior disso. Os vídeos estão aí na world wide web para quem os quiser ver. Este espaço de interstício entre o real e o imaginário que o Dance Temple promove representa uma das directrizes do laboratório sociológico que o BF produz para as sociedades pós-industrializadas do inicio do século XXI. A sua forma orgânica e tribal, num desejo de retorno ao arcaico, ao bucólico fazem deste festival uma reunião de tribos urbanas. Como afirmou Bennett estes subgrupos interligam-se devido à partilha de gostos musicais e à sua forma de vestir. Hoje, sabemo-lo que é através de um fenómeno social denominado festivalização da cultura. Este movimento sócio-cultural determinado pela festivalização da cultura é catalisador de uma indústria que se tornou massiva nas últimas duas décadas. De momento, todo este sector está suspenso. Algo nunca antes visto. E agora? De que forma esses laboratórios sociológicos que giram à volta do globo vão impulsionar as sociedades pós-pandémicas? O que será dos boomers? Dos burners, ozorians? Todas as outras tribos que anualmente fazem os seus festivais nos cinco continentes para os outsiders encontrarem um retorno ao idílico, ao tribal e comunitário? Eu acredito que estes laboratórios sociológicos representam atualmente uma forma de produção cultural em massa para alimentar as technomad tribes que se envolvem em processos rituais pós-modernos. São estes espaços liminoides suspensos da vida normal que permitem reforçar laços comunitários fora dos seus sistemas sociais pessoais. Ou seja, estes espaços representam também a busca de (re) criar novas emoções que parecem estar suspensas no mundo atual. Poder-se-à dizer que é um escape ao mundo normal e que durante a abertura dessa janela heterotópica as pessoas acreditam estabelecer uma conexão espiritual, quanto mais não seja com elas próprias. Aquilo que Graburn determinou como uma sacred journeyContinuarão estes “outros espaços” a ser seguros? Estes lugares de memória promovem um ethos místico e são espaços que conferem liminaridade, liberdade e segurança. De que forma a pandemia vai afetar estes espaços de produção em massa da chamada cultura psicadélica, da qual o BF é refém e beneficia. Estes “outros espaços” inserem-se num movimento sócio-cultural determinado pela festivalização da cultura e identificam-se como festivais transformacionais. Durante duas décadas este epifenómeno sócio-cultural evoluiu muito significativamente e ao longo dos anos a oportunidade de realizar a sua sacred journey estava garantida. Pela primeira vez na história da modernidade tardia global, fomos todos obrigados a parar de produzir cultura através da sua festivalização. Que impacto esta ruptura poderá ter no futuro da disseminação da cultura psicadélica. Até aqui, muitos dos festivais transformacionais mais promovidos na world wide web, apresentavam um sucesso inequívoco. Percebeu-se que estes festivais esgotavam todos os seus bilhetes muito antes da realização do festival e mais, o BF esgotava a lotação em noventa minutos. Mais de 33 mil bilhetes, a 200€ cada bilhete, perfazendo um volume de receitas acima dos 6 milhões de euros. De facto, em duas décadas o movimento alternativo desabrochou num movimento de massas e hoje, os espaços que alimentam este movimento global, em conjunto com as suas ferramentas psicadélicas, representam laboratórios, a céu aberto, de elevada importância para o estudo do sapiens tanto na sua vertente sociológica como antropológica.  

Estímulo atual

03/04/2020

Professor essa perspectiva é bem elucidativa do que me espera. Agora, relativamente à sua reflexão:
Na minha opinião, a classe nunca vai deixar de ser uma variável de análise sociológica, porque: (i) a população mundial em 50 anos aumentou para o dobro e em 100 anos será o triplo da população de 1960; (ii) o grande poder económico está confinado a 1 ou 2% da população mundial e estará nas mãos de uma percentagem menor em 2050; (iii) os valores, os dogmas (Deus, patria e família) que foram cultivados até aos anos 70 e 80 estão em declínio e tendem a desaparecer para ser renovados por motivações e ambições mais exacerbadas, como nacionalismo, extremismo, egoísmo e individualismo. Ainda que Maffesoli tenha referido que o século XXI traria o retorno do arcaico e emocional, o tal orgiasmo remete para um excesso, uma efervescência coletiva, um paradoxo para as sociedades contemporâneas fragmentadas e individualizadas. A liquidez do sujeito pós-moderno que Bauman aportou, converge com a reflexão de Maffesoli ao nível emocional e arcaico, pois remete para o hedonismo puro e duro, o tal “a vida nada vale mas sabemo-lo nada vale a vida” quando referia a veia Dionísia de Nietzsche que declarou “Deus está morto”. Ora rei morto, rei posto. Sempre assim foi e sempre assim será! 
O homem é atualmente um ser tecnologicamente musculado, altamente narciso que se preocupa muito mais com a emancipação de um avatar virtual do que com a sua própria mente. Além do mais, está tão competitivo que compete até com a imagem que o espelho lhe dá. Tudo isto não era essencial no patamar do modernismo. Alberto Caeiro pela voz de Pessoa dizia que pensar incomoda como andar a chuva e hoje não se pensa muito. Reage-se por influência de uma tecnologia super rápida. É nesse fio de meada que surge o imediatismo, o presenteismo identificados nas sociedades atuais por Bauman e Maffesoli. Antes disso, já Foucault referia a morte da potência humana fora das voltas do poder. Hoje o poder é tudo e a informação é poder. A dinamização da informação de há 50 anos para cá é incomparável, logo a percentagem de informação falsa e prejudicial também é incomparável. No entanto, não olhamos a meios para inserir cada vez mais informação pessoal na teia maquiavélica que nos liga a todos virtualmente e fazemo-lo de bom grado, uma espécie de servidão voluntária que Etienne de La Boetie referiu no século XVI. Isto para dizer que a razão, a preocupação em construir um futuro próspero, que prevalecia nos idos anos 70 e 80, está cada vez mais fundada em terrenos pantanosos, tanto por culpa do homem como do sistema. Bauman referia que liberdade e segurança se tornaram um binómio. Tínhamos que dar um para ter o outro. Não poderíamos ter os dois por igual, e isso é uma realidade cada vez mais incontornável. 
Retornando à sua observação: 
A fundação do Brasil foi construída em desigualdades. À semelhança de todos os outros que foram colonizados e onde foi introduzida a escravatura, a ressaca em torno de uma utopia iluminista que supostamente precedia a “liberté, égalité, fraternité" nunca chegou a ser superada. Em vez disso elegeram-se líderes bacocos, sabidos em alimentar sistemas cíclicos e viciados em oligarquias. Hoje, não se pensa muito além, não se junta dinheiro para construir uma casa, porque o sistema de consumo desenfreado conduz-nos a gastar dinheiro em muitas mais coisas e porque o dinheiro está muito mais caro! Nesse sentido, estes festivais da linha da frente são para os que tem dinheiro e para os que tem vontade em o gastar, pois o futuro não nos preocupa. Preocupa-nos sim, a vontade de viver o presente, viver o agora, o here and now. Os branquelas são os homens do dinheiro no Brasil, pois os mestiços e os negros serão sempre subvalorizados, desprezados e óptimos para servir o homem branco que tem a grana. 
Atrevo-me a dizer, no entanto, que festivais como o BF que se promovem alternativos e na grande ilusão europeia, dão espaço [não só] a todos os rastas, os dependentes químicos, os rejeitados da sociedade (por assim dizer) para formar uma comunidade espontânea que, para além de uma ilusão heterotópica, reforçam vínculos que para muitos só são comparáveis aos tempos tribais. Não é que as ditas tribos vivessem em pé de igualdade pois eram construídas segundo uma hierarquia, tal como o sistema atual, mas o amor ao dinheiro (essa causa de todo o mal que Paulo de Tarso enunciou ao seu discípulo Timoteo) não criava clivagens entre os patamares hierárquicos, como hoje se verifica. 
A Boomland pode também representar um espaço mitológico, pois o grande sucesso do festival é a estória boca-a-boca que é passada de mão em mão. As personagens desse mito, são elas mesmas, esses atores sociais que depois de uma experiência mística, extática, plantam na mente dos outros uma necessidade de viver algo igual. Isso tudo é efémero. Ainda que possa ser ou não transformativo, não é fundamental para viver uma vida bem realizada, social e hierarquicamente. Mas, como referi, o importante é vive-la para cimentar um lugar no grupo do qual fazemos parte socialmente, independentemente do dinheiro que ela exija, pois o dinheiro tal como nós não viverá para sempre. A grande diferença que eu vejo entre festivais como o BF e outros está no protagonista da história que são os psicadélicos. O indivíduo e o colectivo vivem ávidos por um contacto com psicadélicos e uma herdade vigiada, protegida e aberta a essa experiência, não aparece todos os dias. Aparece de dois em dois anos e abre a tal janela heterotópica para "assaltar" os interstícios da mente. Na Boomland quase tudo é possível, pois o que está para além de tudo, pode de repente aparecer-nos na mente, e esse encontro, pode ser ou maravilhoso ou terrifico. Essas narrativas de neo-tribalismo, solidariedade, igualdade e comunhão acontecem de facto, mas só acontecem lá. Porque assim que saímos daquela porta, maior parte dessas fica lá, naquela dimensão espácio-temporal heterotópica. Acontecem lá, porque isso tornou-se um mantra, uma lifestyle do BF por assim dizer (ou de outros congéneres) porque isso é cool, é fixe, e dessa forma eu pertenço à tribo e a tribo pertence-me. É esse prêt-a-manger e prêt-a-porter que a Good Mood conseguiu trabalhar ao longo dos anos, e agora, tem preparado para servir no período pré-festival aos outsiders em ansias por serem largados na Boomland, fora das correntes e das trelas que os aprisionam no everyday life. Se há alguma t-shirt que hoje o mundo pode vestir, essa t-shirt traz estampada na frente - desigualdade. E é nesse pântano da desigualdade que o ser humano procura espaços idílicos, no limite, heterotópicos, em que durante uma semana da sua agenda anual, se possa embrenhar numa technomad tribe, que se encontra de dois em dois anos, nas margens da barragem Marechal Carmona, como estimulo à promulgação da liberdade e segurança, do homem pós-industrial. 

Pensamentos mais ou menos

24/02/2018

Neste momento efémero a vida corre-me bem, então eu vou surfar a onda até onde o movimento me permitir. Certo, estou, que momentos duros se aproximam, num irreversível ciclo humano. 

Tu existes para mim, simultaneamente e apenas, porque eu existo e te tenho na minha cabeça. Basta eu fechar os olhos, os ouvidos e o meu coração, para deixares de existir. 

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Heterotopia, Liminality and Everyday Life - The Boom Festival as an epiphenomenon of alterity

02/09/2021

Abstract

For the past two decades the concept of ‘festival’ has evolved into new connotations on the sociocultural field. This thesis explores these new connotations of ‘festival’ as it develops into a phenomenon of mass culture and industry, i.e., festival business has increased exponentially, as a consequence of a mass consumption and festival related industries. There has been a social effervescence around the transformational festival meme which triggered new perspectives on the cultural sciences scope. This study examines those perspectives along with data analysis to expand social circumstances and cultural frameworks that configure the subjective dispositions and drive the demand for Boom Festival in Portugal. Boomland is Boom Festival’s territory and appears to be both a popular sanctuary and a pilgrimage site for fans of a global movement called psytrance tribe. This alternative movement with origins in the so-called counter-cultural tendencies of the 1960s promotes its hedonistic vibe, a spiritual tendency and a high interest in the trade and consumption of psychedelics. Psytrance, an epiphenomenon of EDMC, is not only the source of Boom Festival but it is the main feature which sets this festival apart from the rest of those on the international circuit. This investigation is about Boomland and the festival itself. It analyses the impact the Boom Festival experience can have on the lives of those who live it. The thesis emphasizes identity modulations associated with the sociological process, i.e., practices and cultural fruition between individuals and groups in contexts of otherness promoted during the event. Simultaneously, it addresses the properties at the festival that can be analyzed as heterotopic transgressive spaces in order to understand how the contexts of temporary suspension and liminality imply a transformative power in the return to everyday life. In addition, it is important to identify neotribalism / heterotopia / ritual process as the key elements to which this thesis is built upon. As a result, it is vital to situate the Boom Festival in the contemporary sociocultural paradigm while keeping track on the impact of digital technology on the anthropological range. The research involved an ethnographic approach, using digital ethnography and auto-ethnography, complemented by semi-directed interviews. The empirical work underlined the three (liminal) moments related to the 2018 edition of Boom Festival – before, during and after the festival –, based on a 20 people discussion/observation group, gathered on the digital platform Facebook, implying fieldwork both in digital and geographic territory.