terça-feira, 29 de março de 2016

Correr para Viver

22/03/2016

Já há muito comecei a correr. 
Correr pela saúde, pelo prazer, pela paixão... 
Correr para viver. 

No intervalo de todas essas corridas, nunca fui o aluno aplicado que seguia as regras desportivas com certidão, mas ao invés, o rockeiro que precisava de loucura e muita diversão.
Ao longo da minha vida, nunca fui o gajo pacato que se resumiu a ficar na sua aldeia, na sua cidade, sem procurar grandes aventuras, enormes desafios, pra sua idade! 
Caminhei em terrenos muito traiçoeiros, difíceis e ilusórios. Submeti a minha mente e o meu corpo, a testes muito contraditórios. 
No entanto, aqui e ali ia praticando desporto. Ia exercitando o corpo com vontade e paixão. Podia ter um cigarro na boca e a garrafa de Jack Daniels na mão, mas o desporto, nunca abandonou o meu coração!

Adoro desafios e já percebi que tenho uma queda pela dor! Sofrer para atingir um objectivo faz parte do meu caminho. Comecei por correr meias maratonas e resistir à dor para chegar ao fim. No mesmo ano que corri a primeira meia maratona oficial, decidi correr uma maratona, sem ter grande preparação. Lá me preparei como deu e sozinho, fiz-me à estrada para percorrer 42km. Ao inicio parecia que tinha asas e o meu coração estava tão cheio e o meu consciente tão agradado, que me achava o verdadeiro atleta. 
Então na parte final, o meu coração encolheu ao ponto mais pequeno que podia, o meu consciente abandonou-me e o meu espírito abraçou o meu corpo, pesado, dorido e ferido e carregou-o até ao final da prova. 

Os últimos quilómetros destas viagens são verdadeiras travessias no deserto, onde tu escolhes se queres sair do deserto ou ficar lá. São uma verdadeira lição de vida, pelo menos para mim! São o fechar de uma etapa e abrir a porta para uma nova.

Essa maratona ficou para sempre gravada na memória, em que houve uma enorme batalha do ser e do espírito, para atingir um fim. O meu corpo sem forças, os pés em dores terríveis com bolhas e os olhos em lágrimas. A sensibilidade tão à flor da pele, que o mínimo deslize pode rebentar num choro compulsivo, uma derrota marcante, um momento de fraca glória. 
Eu podia ter corrido mais devagar e terminar a prova sem dores, com um sorriso de orelha a orelha. Mas esse não sou eu! 
As grandes provas eu termino-as com os olhos carregados de lágrimas, o corpo como se tivesse saído de uma batalha e um coração tão esgotado, como se nunca tivesse sido amado. 

Há dois dias, entrei numa nova aventura. Fiz uma ultra maratona, no Parque Paleozóico, pouco mais de 42km, mas ainda assim, em trilhos no meio do mato, montanha, rochas e riachos. De novo, não estava preparado para fazer o que o meu emocional me levou a fazer. O racional dizia-me para fazer a prova mais devagar e terminar a prova com um sorriso de orelha a orelha. Mas esse não sou eu! 
Comecei a fazer provas deste tipo, há cerca de 5 meses e fui dar de caras, com uma das provas mais exigentes, nesta categoria, a nível nacional. O meu objectivo era dar tudo o que tinha. E de facto, dei tudo o que tinha e o que não tinha!
De novo, na parte inicial, achava-me o verdadeiro atleta. Até esgotar o corpo todo e as cãibras se instalarem nos músculos todos das pernas. Quando enfrentei as verdadeiras subidas incrivelmente íngremes e de muita pedra solta, os meus músculos começaram a contrair e achei que ia cair para o lado, sem poder caminhar. Se a maratona de estrada havia sido a travessia no deserto, esta ultra maratona, foi sem dúvida o deserto maior, mais inóspito e assustador que enfrentei! 
O meu coração ficou tão pequeno que quase não o sentia, o consciente há muito me tinha virado as costas e o meu espírito agarrou-se a todo o que pode: - à música electrónica que levava comigo; à proximidade e ligação com a Pachamama; à vontade de chegar ao fim que ainda resistia no meu minúsculo coração. 
Quanto mais o meu consciente me dizia para parar até chegar ajuda, mais as cãibras se revelavam e as lágrimas se ajuntavam na borda dos olhos prontas a descer sem piedade. Fiz maior parte do percurso sozinho, suspirando à Pachamama e pedindo por suplica à energia divina, que não me contraísse os músculos das pernas por completo, impedindo-me de caminhar. Levantar a perna para escalar uma pedra, ou mudar de direcção foi um verdadeiro desafio, pois a cãibra estava prontinha a entrar. 

Quando estava a centenas de metros da meta, senti necessidade de gritar, chorar em desespero e glória, pela incrível batalha que tinha travado com o meu corpo e espírito. Uma vez mais consegui! Cheguei ao fim. E depois ri. 
Mas, ainda agora, aquelas horas, aqueles passos, aquelas dores, são memórias que ainda não esqueci! 

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