Ele começou a gostar de jogar e daí até que se apercebesse que estava viciado levou tempo, assim como levou memórias. Ele voltou a sentar e começou a jogar uma vez mais naquela tarde. Porém, desta vez ele não estava sozinho! Tinham aparecido várias silhuetas com diferentes estereótipos de vida, e alheios à dele. Ele começou a ver a vida que ele nunca havia de ter, uma por uma, enquanto ele dava as cartas. Ele veio a sentir todos e alguns momentos que passaram fugazmente, mas que tinham construído uma vida, por mais extensa que fosse.
Ele - o dealer, apercebia-se do tempo que passava e os outros não. Ele apercebia-se dos aviões que passavam e os outros não, ainda que estivesse fora do alcance de visão dele. Ele tinha o dom de sentir. Mas quero com isto dizer, que sentia mesmo demasiado. Não falo de um sentimento de existência comum a todos nós. Ele sofria sentindo também. O género dele invulgarmente fazia transmitir sentimentos de bem estar. Uma inaturalidade que caia bem. Porém ele sofria sentindo também.
Foram aqueles tempos em que ele ouvia uma song linda, que transmitia sentimentos de bem estar também. A letra era acondicionada a uma linda voz de mulher com uma batida de emoção festiva e avassaladora, perante milhares de pessoas a dançar à sua volta. Viu festas lindas e pessoas também, mas gostou mais do som que ouviu. Apesar de tudo, ele tinha uma certa afinidade com o som, acima do normal.
Ficar acomodado com a vida que se tem e não fazer nada para a mudar, é sobreviver, não é viver. A comodidade de casa está a ficar tão vulgar que se perde a vontade de mudar a posição de dormir. A informação dissipa-se de uma maneira tão veloz que o ser humano vê-se stressado para a seguir. E esse stress tem causas cada vez mais acentuadas. Cada vez mais eficazes e aterradoras.
Ele começou por ficar acomodado ao jogo e às cartas. À mesma cadeira e diferentes cigarros, que se fumavam depressa. Depois disso começou por ter medo de largar tudo, isto é, as cartas, o jogo, a mesa que deambula e a cadeira onde se sentou muitas vezes. Ele sabia o quanto as coisas tinham mudado e a evolução em redor era avassaladora. Ele tinha que vencer o medo e sorrir perante a vida que tinha construído até então e ir em busca de mais uma etapa. Uma etapa onde o ritmo é outro, a sensação de viver muda. E o tempo passa…
que texto gostoso de ler, as palavras dançam e combinam num ritmo gracioso!
ResponderEliminarParabéns =)
Obrigado Ana.
ResponderEliminarNada como o dia internacional da dança.. para as palavras.. também elas dançarem ;-)