03/04/2020
Professor essa perspectiva é bem elucidativa do que me espera. Agora, relativamente à sua reflexão:
Na minha opinião, a classe nunca vai deixar de ser uma variável de análise sociológica, porque: (i) a população mundial em 50 anos aumentou para o dobro e em 100 anos será o triplo da população de 1960; (ii) o grande poder económico está confinado a 1 ou 2% da população mundial e estará nas mãos de uma percentagem menor em 2050; (iii) os valores, os dogmas (Deus, patria e família) que foram cultivados até aos anos 70 e 80 estão em declínio e tendem a desaparecer para ser renovados por motivações e ambições mais exacerbadas, como nacionalismo, extremismo, egoísmo e individualismo. Ainda que Maffesoli tenha referido que o século XXI traria o retorno do arcaico e emocional, o tal orgiasmo remete para um excesso, uma efervescência coletiva, um paradoxo para as sociedades contemporâneas fragmentadas e individualizadas. A liquidez do sujeito pós-moderno que Bauman aportou, converge com a reflexão de Maffesoli ao nível emocional e arcaico, pois remete para o hedonismo puro e duro, o tal “a vida nada vale mas sabemo-lo nada vale a vida” quando referia a veia Dionísia de Nietzsche que declarou “Deus está morto”. Ora rei morto, rei posto. Sempre assim foi e sempre assim será!
O homem é atualmente um ser tecnologicamente musculado, altamente narciso que se preocupa muito mais com a emancipação de um avatar virtual do que com a sua própria mente. Além do mais, está tão competitivo que compete até com a imagem que o espelho lhe dá. Tudo isto não era essencial no patamar do modernismo. Alberto Caeiro pela voz de Pessoa dizia que pensar incomoda como andar a chuva e hoje não se pensa muito. Reage-se por influência de uma tecnologia super rápida. É nesse fio de meada que surge o imediatismo, o presenteismo identificados nas sociedades atuais por Bauman e Maffesoli. Antes disso, já Foucault referia a morte da potência humana fora das voltas do poder. Hoje o poder é tudo e a informação é poder. A dinamização da informação de há 50 anos para cá é incomparável, logo a percentagem de informação falsa e prejudicial também é incomparável. No entanto, não olhamos a meios para inserir cada vez mais informação pessoal na teia maquiavélica que nos liga a todos virtualmente e fazemo-lo de bom grado, uma espécie de servidão voluntária que Etienne de La Boetie referiu no século XVI. Isto para dizer que a razão, a preocupação em construir um futuro próspero, que prevalecia nos idos anos 70 e 80, está cada vez mais fundada em terrenos pantanosos, tanto por culpa do homem como do sistema. Bauman referia que liberdade e segurança se tornaram um binómio. Tínhamos que dar um para ter o outro. Não poderíamos ter os dois por igual, e isso é uma realidade cada vez mais incontornável.
Retornando à sua observação:
A fundação do Brasil foi construída em desigualdades. À semelhança de todos os outros que foram colonizados e onde foi introduzida a escravatura, a ressaca em torno de uma utopia iluminista que supostamente precedia a “liberté, égalité, fraternité" nunca chegou a ser superada. Em vez disso elegeram-se líderes bacocos, sabidos em alimentar sistemas cíclicos e viciados em oligarquias. Hoje, não se pensa muito além, não se junta dinheiro para construir uma casa, porque o sistema de consumo desenfreado conduz-nos a gastar dinheiro em muitas mais coisas e porque o dinheiro está muito mais caro! Nesse sentido, estes festivais da linha da frente são para os que tem dinheiro e para os que tem vontade em o gastar, pois o futuro não nos preocupa. Preocupa-nos sim, a vontade de viver o presente, viver o agora, o here and now. Os branquelas são os homens do dinheiro no Brasil, pois os mestiços e os negros serão sempre subvalorizados, desprezados e óptimos para servir o homem branco que tem a grana.
Atrevo-me a dizer, no entanto, que festivais como o BF que se promovem alternativos e na grande ilusão europeia, dão espaço [não só] a todos os rastas, os dependentes químicos, os rejeitados da sociedade (por assim dizer) para formar uma comunidade espontânea que, para além de uma ilusão heterotópica, reforçam vínculos que para muitos só são comparáveis aos tempos tribais. Não é que as ditas tribos vivessem em pé de igualdade pois eram construídas segundo uma hierarquia, tal como o sistema atual, mas o amor ao dinheiro (essa causa de todo o mal que Paulo de Tarso enunciou ao seu discípulo Timoteo) não criava clivagens entre os patamares hierárquicos, como hoje se verifica.
A Boomland pode também representar um espaço mitológico, pois o grande sucesso do festival é a estória boca-a-boca que é passada de mão em mão. As personagens desse mito, são elas mesmas, esses atores sociais que depois de uma experiência mística, extática, plantam na mente dos outros uma necessidade de viver algo igual. Isso tudo é efémero. Ainda que possa ser ou não transformativo, não é fundamental para viver uma vida bem realizada, social e hierarquicamente. Mas, como referi, o importante é vive-la para cimentar um lugar no grupo do qual fazemos parte socialmente, independentemente do dinheiro que ela exija, pois o dinheiro tal como nós não viverá para sempre. A grande diferença que eu vejo entre festivais como o BF e outros está no protagonista da história que são os psicadélicos. O indivíduo e o colectivo vivem ávidos por um contacto com psicadélicos e uma herdade vigiada, protegida e aberta a essa experiência, não aparece todos os dias. Aparece de dois em dois anos e abre a tal janela heterotópica para "assaltar" os interstícios da mente. Na Boomland quase tudo é possível, pois o que está para além de tudo, pode de repente aparecer-nos na mente, e esse encontro, pode ser ou maravilhoso ou terrifico. Essas narrativas de neo-tribalismo, solidariedade, igualdade e comunhão acontecem de facto, mas só acontecem lá. Porque assim que saímos daquela porta, maior parte dessas fica lá, naquela dimensão espácio-temporal heterotópica. Acontecem lá, porque isso tornou-se um mantra, uma lifestyle do BF por assim dizer (ou de outros congéneres) porque isso é cool, é fixe, e dessa forma eu pertenço à tribo e a tribo pertence-me. É esse prêt-a-manger e prêt-a-porter que a Good Mood conseguiu trabalhar ao longo dos anos, e agora, tem preparado para servir no período pré-festival aos outsiders em ansias por serem largados na Boomland, fora das correntes e das trelas que os aprisionam no everyday life. Se há alguma t-shirt que hoje o mundo pode vestir, essa t-shirt traz estampada na frente - desigualdade. E é nesse pântano da desigualdade que o ser humano procura espaços idílicos, no limite, heterotópicos, em que durante uma semana da sua agenda anual, se possa embrenhar numa technomad tribe, que se encontra de dois em dois anos, nas margens da barragem Marechal Carmona, como estimulo à promulgação da liberdade e segurança, do homem pós-industrial.
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