segunda-feira, 28 de junho de 2021

Laboratório sociológico: Um epifenómeno denominado psytrance

06/02/2021

O BF gira em torno de um epifenómeno chamado psytrance. Aliás tem sido assim desde há cerca de duas décadas. Identificado por St John como hyperliminal e determinado pelo BF como Dance Temple, este espaço é a prova maior disso. Os vídeos estão aí na world wide web para quem os quiser ver. Este espaço de interstício entre o real e o imaginário que o Dance Temple promove representa uma das directrizes do laboratório sociológico que o BF produz para as sociedades pós-industrializadas do inicio do século XXI. A sua forma orgânica e tribal, num desejo de retorno ao arcaico, ao bucólico fazem deste festival uma reunião de tribos urbanas. Como afirmou Bennett estes subgrupos interligam-se devido à partilha de gostos musicais e à sua forma de vestir. Hoje, sabemo-lo que é através de um fenómeno social denominado festivalização da cultura. Este movimento sócio-cultural determinado pela festivalização da cultura é catalisador de uma indústria que se tornou massiva nas últimas duas décadas. De momento, todo este sector está suspenso. Algo nunca antes visto. E agora? De que forma esses laboratórios sociológicos que giram à volta do globo vão impulsionar as sociedades pós-pandémicas? O que será dos boomers? Dos burners, ozorians? Todas as outras tribos que anualmente fazem os seus festivais nos cinco continentes para os outsiders encontrarem um retorno ao idílico, ao tribal e comunitário? Eu acredito que estes laboratórios sociológicos representam atualmente uma forma de produção cultural em massa para alimentar as technomad tribes que se envolvem em processos rituais pós-modernos. São estes espaços liminoides suspensos da vida normal que permitem reforçar laços comunitários fora dos seus sistemas sociais pessoais. Ou seja, estes espaços representam também a busca de (re) criar novas emoções que parecem estar suspensas no mundo atual. Poder-se-à dizer que é um escape ao mundo normal e que durante a abertura dessa janela heterotópica as pessoas acreditam estabelecer uma conexão espiritual, quanto mais não seja com elas próprias. Aquilo que Graburn determinou como uma sacred journeyContinuarão estes “outros espaços” a ser seguros? Estes lugares de memória promovem um ethos místico e são espaços que conferem liminaridade, liberdade e segurança. De que forma a pandemia vai afetar estes espaços de produção em massa da chamada cultura psicadélica, da qual o BF é refém e beneficia. Estes “outros espaços” inserem-se num movimento sócio-cultural determinado pela festivalização da cultura e identificam-se como festivais transformacionais. Durante duas décadas este epifenómeno sócio-cultural evoluiu muito significativamente e ao longo dos anos a oportunidade de realizar a sua sacred journey estava garantida. Pela primeira vez na história da modernidade tardia global, fomos todos obrigados a parar de produzir cultura através da sua festivalização. Que impacto esta ruptura poderá ter no futuro da disseminação da cultura psicadélica. Até aqui, muitos dos festivais transformacionais mais promovidos na world wide web, apresentavam um sucesso inequívoco. Percebeu-se que estes festivais esgotavam todos os seus bilhetes muito antes da realização do festival e mais, o BF esgotava a lotação em noventa minutos. Mais de 33 mil bilhetes, a 200€ cada bilhete, perfazendo um volume de receitas acima dos 6 milhões de euros. De facto, em duas décadas o movimento alternativo desabrochou num movimento de massas e hoje, os espaços que alimentam este movimento global, em conjunto com as suas ferramentas psicadélicas, representam laboratórios, a céu aberto, de elevada importância para o estudo do sapiens tanto na sua vertente sociológica como antropológica.  

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