02.02.2022
Após as eleições legislativas a comunicação social foi voraz em acompanhar os 12 passos desde a saída do elevador ao púlpito, onde Rui Rio foi levado a responsabilizar-se do fracasso e a admitir uma demissão do cargo ocupado nos últimos anos. Rio não pode ser o único responsável, mas sim todo o mecanismo do PSD que andou durante anos focado em denegrir a imagem do seu líder, promovendo a instabilidade do partido, quando o seu primeiro e único objetivo era focar-se na oposição ao governo e esperar pela oportunidade de substituir o governo vigente. Enfim, focos errados que não podem ser endereçados a um homem só.
O dia, mas sobretudo, a noite de 30 de Janeiro de 2022 será histórica. Não apenas pela inesperada maioria absoluta do partido socialista como pela cristalização de o partido Chega como terceira força política. Foram, de facto, umas eleições legislativas muito interessantes, mas vamos por partes.
Ainda numa tentativa de varrer os cacos dos estilhaços da noite festiva do PS e arrumando a sala, depois de tudo (e muito), do que já foi comentado, notavelmente, na comunicação social alargada (nas ditas redes sociais), considero que existe possibilidade de esboçar uma opinião mais palpável e clara.
Algo de paradoxal, cómico e dramático aconteceu ao mesmo tempo, ou não fosse este, um episódio da vida real. Passo a explicar: os dois protagonistas da noite são hábeis figuras políticas capazes de movimentar legiões mas os resultados que alcançaram não são produto do trabalho, a intelectualidade ou astúcia que cada um tem para oferecer.
Esta proeza de António Costa não faz dele um génio politico, ou seja, nem a sua acarinhada comunicação social, comentadores politicos e estudos de previsão, lhe atribuíam uma maioria e para um infindável optimista como Costa é, uma maioria absoluta, era o sonho de uma noite de verão; isto é, fantasia.
André Ventura é inteligente, tem qualidades de feirante, cavalga nos podres que o sistema produz e com isso, e apenas com isso, conseguiu levar o Chega a terceira maior força política nacional, em três anos. É notável, mas ao contrário do rótulo que as massas lhe atribuem e onde ele se vai alimentando, André Ventura, não tem nada de ditador, extremista ou vil. Qualquer comparação a Caligula, Hitler, Kim Jong-un, Putin ou Xi-Ping é pura ilusão.
O Chega cresceu nesse vazio que a democracia portuguesa nunca saciou, não por arte do Ventura mas porque existe um numero considerável de portugueses em todo território nacional descontentes e contra o sistema implementado pelos maiores partidos e as suas elites. Portanto a minha interpretação da noite eleitoral é que a 30 de Janeiro de 2022 se formou a tempestade perfeita que castigou os partidos à esquerda e deixou os dois partidos à direita muito mal tratados: um gravemente ferido (PSD) e outro em morte cerebral (CDS).
Anteriormente, no texto Fim do ciclo ou fim do circulo?, datado de Outubro passado, referi que havia duas possibilidades: a) maioria absoluta do PS ou b) maioria dos partidos à direita coligados, onde a minha preferencia recaía sobre a segunda. Entendo que devia ter recaído sobre o Chega uma pressão constante de mostrar ao que vem e o que pode fazer quer através de retórica como através de resultados práticos. Assim, mostrando aos eleitores do Chega a liquidez do partido, a navegação sem rumo, a incapacidade de legislar em prol de uma sociedade mais igualitária e equilibrada.
Pois bem, nesse mesmo texto referi também como pode ser perigosa e preocupante a rápida ascensão do Chega. Pois, não havendo oposição direta e considerando o Chega como a oposição, neste caso, protestantes assíduos de uma maioria absoluta que se resigna a fazer de conta que eles não existem, muito dependerá da obra que for feita por António Costa, ao longo dos próximos 4 anos. Costa vai ter tempo, estabilidade e dinheiro que lhe permita fazer reformas urgentes no sistema português. Portanto, diria que, para aquele que muitos consideram o melhor politico da sua geração e tudo se alinhou a seu favor, esta é a sua oportunidade dourada para se perpetuar na história nacional como segunda figura principal do partido socialista, logo depois de Mário Soares.
Para concluir reitero a minha preocupação do que advém desta noite eleitoral histórica. Ou seja, o que me preocupa não é André Ventura e o seu rebanho, mas sim, os que virão depois de Ventura para liderar um partido legitimado democrática e constitucionalmente, com imagine-se 30% (ou mais) do eleitorado nacional a seu favor, onde coligado possa formar governo e Ventura seja substituído por alguém realmente ameaçador, ditador e perigoso para a democracia nacional.
Portugal sendo um país de brandos costumes pode descuidadamente caminhar sobre areias movediças que levem a liberdade, a fraternidade e igualdade (lema da revolução francesa que promulgou a democracia francesa e, por consequência, a europeia) para zonas proibidas e graves, para as próximas gerações nacionais.
Não esquecer também que, tal como os inesperados resultados eleitorais, uma inflação que muitos acham temporária e, por isso, desvalorizam, pode, efectivamente, ser uma ameaça a médio prazo, contribuindo para um esmagar da sociedade média. Isto são contas de um rosário que para já ninguém faz, nem o próprio Costa, mas pode muito bem ser um dos seus principais adversários durante os próximos 4 anos.
Com isto termino dizendo que caso a inflação seja de facto permanente nos próximos anos (a meu ver, o PRR português e os seus homólogos que vão ser distribuídos a nível mundial, não veem de mão beijada!) nem o todo poderoso António Costa que muitos aplaudem, agora, de pé, vai conseguir contornar esta problemática/dramática situação, e, na melhor das hipóteses (para ele) estará já a ocupar um cargo europeu, lavando as mãos como Pilatos, com um sorriso nos lábios como é seu apanágio.
Sem comentários:
Enviar um comentário