domingo, 12 de março de 2017

Eros Decadente

11/03/2017

Eros, na mitologia grega, era o Deus do Amor. 
Recentemente fui a um festival cujo nome é Eros. Nesse festival a manifestação de amor é polémica e controversa. Apresentado como evento para maiores de idade, o que se pode encontrar dentro daquele pavilhão é pessoas à descoberta e pessoas à deriva. 
Desde tendas de tatuagem a tendas de objectos para o uso sexual, passamos por espaços onde o BDSM é rei! 
Ao percebermos que há pessoas que tem um enorme prazer na dor infligida e a infligir essa dor nos outros, damos conta que a dor se manifesta no amor dessas pessoas. 

Segundo Platão, Eros foi concebido através de um acto de ousadia, oportunismo e desespero, quando Pênia (pobreza) se aproveitou do estado desequilibrado de Poros (Riqueza) e se envolveram sexualmente. O mito tem outras qualidades interessantes, mas a ressalva fica em Eros ser o filho que é da falta e da abundância. 

Para quem defende que o Erotismo ou a Pornografia é uma manifestação artística, o evento actual pode não ser a melhor escolha para observar, para aprender, para se excitar. O prazer que se procura na observação de corpos nus, em contacto, línguas húmidas em volta de zonas erógenas, um vai e vem de penetração mecânica sem afecto algum, pode deitar por água abaixo a excitação inicial ao entrar no espaço onde o festival se desenrola. Portanto, alimentar o nosso consciente de que vamos vislumbrar mulheres e homens bem tratados a envolverem-se lascivamente sem preconceito, é uma esperança vã. 
Os actores sociais não estão lá pelo prazer de serem observados, mas pelo amor ao dinheiro, ou o desespero de ganhar a vida que se tornou tão dependente de químicos, de possuir algum dinheiro para conseguir alimentar um corpo que está em clara decadência. 
O desequilibro é tal que faz lembrar o estado de Poros! 
A luxuria ao apoderar-se da sociedade actual abriu caminho à ostentação e libertou a ilusão de que “la bella vita” é enchermos os olhos dos outros, com aquilo que não somos, nem temos!  
O show de sexo ao vivo, por acrescidos 3 euros (!) faz lembrar uma performance de circo... as actrizes sobem ao palco já nuas, umas com vibrador outras não, os homens sobem ao palco estimulados, dopados, com a “arma” de fora, estendida, na palma da mão. Sexo mecânico, gemidos que auferem dinheiro e escondem desgostos, vícios e dor. Sorrisos impostos em caras de mágoa, corpos doentes e viciados. 
“Il capo”, roda à beira do palco e observa a sua tripulação com um sorriso oportunista e ganancioso. Os corpos, instrumentos de trabalho e para o quais pagamos para ver, revelam acrescentes de silicone e outras massas que para além de intoxicarem o corpo, se tornam desproporcionais e ridículos. 
É em manifestações cada vez mais ridículas que nos vemos inseridos, próprias de uma palhaçada circense. 
O dinheiro cada vez mais escasso, a selecção própria de classes sociais proporciona a eventos como o Eros, um contacto com grupos de homens e mulheres jovens, exaustos pelas longas jornadas consecutivas de dias e noites, com pouca ou nenhuma roupa, deambular pelo pavilhão, estimulados pelo desespero que o relógio avance sem interrupção. Gozados, observados e enxovalhados pela multidão. 

A multidão que se procura no Eros e se revela em casa, dentro de quatro paredes. Casais de várias idades que se excitam sozinhos no meio da gente. Cada ser individual que vive bem, vive melhor, se ostenta, no mundo do Eros decadente.

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