sábado, 3 de julho de 2021

Transformador

12/02/2021

De que forma nós, humanos, transformamos a dor? 

Este ano o carnaval será digital, ou seja, não estão permitidas reuniões/celebrações em grupo, no espaço físico, geográfico mas sim em “outros espaços” - nas várias salas digitais manifestas da world wide web. Nunca antes havíamos feito uso de tal recurso, até porque primávamos pelo contacto, o calor humano, os corpos suados em folia e fantasia. O prazer da carne puro e duro, que o carnavalis confere. 

O mundo antropoceno mudou e pela primeira vez as pessoas fantasiam-se em casa para ficar em casa, permitindo e convidando outras pessoas a “entrarem” nas suas casas através de um sinal digital electrónico. Com isto, nem precisam de descalçar os sapatos à entrada, pois não há risco de sujar nada. Mais, com isto, alguns grupos podem fantasiar-se de nudistas e passearem pela internet desta forma, sem risco de passar frio, contagio ou vergonha. Deve ter-se em conta que a liminaridade fantasiosa do carnaval, ao longo dos séculos, suscitou e promoveu orgias, desejo sexual e obscenidades impróprias a devotos cristãos. Dir-se-ia umas infames festas orgiacas e dionisias que promulgaram o distinto carnaval de Veneza. 

Neste sentido, acende-se aqui um certo voyeurismo clássico da propriedade secreta a que o confinamento nos obriga, particular da permanência no espaço privado, que é assim partilhado. Aqui chegados, questiono se estes “outros espaços” serão promotores de lascividades e pornografias desmedidas próprias de um ritual catartico e de purgação tão manifesto desta época anual? Ou serão apenas respaldos de um imaginário obsceno? 

De qualquer forma, a vertente da saúde e economica posta em risco com este capitulo covid19, revela só meia dose do impacto geral susceptível deste virus transformador.

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